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A SUPERFICIALIDADE DE DIOGO MAINARDI – TOM CAPRI

20 fev
A superficialidade de Diogo Mainardi em seu ‘Obama, Dilma e Tia Clélia’




Veja como está eivado de pseudociência e equívocos o artigo em que Diogo decreta o fim político de Obama, Chávez, Lula, Dilma e da esquerda




Dedicado a Fernando Reinach, que escreve sobre ciências para o Estadão e melhora dia após dia, como em seus artigos “As duas miopias da sociedade moderna”, publicado na seção Vida de 4/2/2010, página A26, e “Um vírus que faz parte do nosso corpo”, na mesma seção, em 18/2/2010, página A20.

Em recente texto enviado a todos, eu disse que três abordagens de renomados articulistas brasileiros haviam chocado pela superficialidade e pseudociência. A primeira era de autoria de Delfim Netto, publicada em sua coluna Sextante, da edição 508 de Carta Capital, e que abordarei em breve. Outra foi sobre o filme Avatar, feita por Daniel Piza, do Estadão, e que já analisei isoladamente aqui. Hoje, vou me ater à superficialidade que aparece de forma gritante em ‘Obama, Dilma e Tia Clélia’, texto que Diogo Mainardi publica em sua coluna na Veja (edição 2148). Nele, Diogo decreta o fim político de Obama, Chávez, Lula, Dilma e da esquerda, e adianta que a Terra está salva da devastação ambiental, uma vez que, diz, a temperatura vem caindo no Planeta e não subindo. Veja a seguir.


A superficialidade de Diogo Mainardi ao menos tem certo encanto e charme. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Diogo Mainardi também, pelo menos nesse seu comentário publicado na edição 2148 de Veja. Nele, Mainardi acerta por linhas tortas ao decretar a morte política de Obama e ao nos antecipar o fim político da esquerda na América Latina, ou seja, de Chávez, Lula, Dilma etc. A superficialidade de Mainardi não está exatamente aí, mas nas causas que aponta para explicar essa derrocada política. Comecemos por Obama.


Mainardi entende que Obama venceu a eleição porque os EUA haviam bandeado momentaneamente para a esquerda no período eleitoral. Entende também que Obama se manteve bandeado para a esquerda até recentemente e que acaba de ser obrigado a corrigir o próprio rumo e bandear de novo para a direita, e que é por aí que chegou a seu ocaso político. É aqui que começa a superficialidade do jornalista.




Para Mainardi, bandear para a esquerda é prometer e tentar instituir um sistema público de saúde mais ou menos nos moldes do SUS ou salvar com recursos públicos as instituições financeiras e as empresas “too big to fail” (grande demais para falir, pois provocariam riscos sistêmicos). Por esses motivos, diz Mainardi, Obama só durou um ano e já acabou politicamente, tendo sido obrigado a bandear de volta para a direita. O articulista acerta no prognóstico, mas é superficial e erra ao achar que a morte política de Obama ocorreu por essas razões.


Ninguém de expressão nos EUA bandeou para a esquerda. Obama ganhou as eleições porque uma crise tirou o emprego de milhões de americanos e ainda ameaça tirar o de outro tanto. Foi somente isto que abriu as portas da Casa Branca a um negro, o primeiro a chegar à presidência, o que dificilmente aconteceria neste primeiro século do milênio, não fosse a crise.


A América é o capital, o capital é a América. O capital está no DNA da América, a América o respira diariamente. Os Estados Unidos são a direita, do mais pobre ao mais rico. Nos EUA, todo mundo é de direita. Até a esquerda americana é de direita, dá para contar nos dedos quem é esquerda autêntica nos EUA. Estar à direita foi paixão à primeira vista dos primeiros americanos, desde que os colonizadores chegaram à América e se propuseram a erguer, ali, a sonhada terra prometida, de talhe capitalista.


Para o americano médio, o capital é um dado da condição humana, algo da natureza que nos foi ofertado pela graça divina. O capitalismo é visto pelo americano como o melhor dos mundos, o único natural e correto. O americano nunca bandeia para a esquerda. Obama só foi eleito porque, tal qual ocorrera com Hitler na Alemanha dos anos 30, um negro surgiu como o messias que iria justamente salvar o capitalismo dos EUA, afundado que havia sido pelas mãos relapsas e incompetentes de Bush, que, cego, não conseguira enxergar nem evitar a crise, muito menos debelá-la. Como Obama não cumpriu essa promessa de campanha (driblar a crise) — o desemprego ainda ameaça milhões de americanos —, o presidente conhece agora o ocaso político, findo seu primeiro ano de mandato. O fato de ser negro só facilitará essa derrocada. Tudo o que Obama ainda deseja e precisa fazer, promessas de campanha ou não, encontrará resistência porque a decepção é grande. Mainardi está certo em tudo isso. Mas não foi bandeada para a esquerda o que levou Obama à vitória nas urnas — Mainardi denomina tal bandeada equivocadamente de ‘regressismo terceiro-mundista’.

Também não houve recente bandeada para a direita, suficiente para levar Obama de vez ao ocaso político. Por falta de estudo (Diogo mesmo reconhece não ter muito estudo), ele não sabe que, de alguns séculos para cá, instituições como o Estado de Direito, o Estado, a política, o direito, a polícia e até mesmo a família e as religiões, não passam de instrumentos de defesa e proteção do capital. Que o grande papel do presidente dos Estados Unidos é, atualmente, de salvaguarda dessas instituições. Tão logo a crise mundial se instalou, pondo em risco a instituição ‘capitalismo’ no mundo, os governos saíram em sua defesa, regando as economias com trilhões de dólares. Portanto, salvaguardar o sistema não é bandear para a esquerda, ao contrário, é fazer as vezes da direita. É aí que erra Diogo Mainardi.

Passemos agora ao ocaso político da esquerda latino-americana, anunciado por Mainardi, de Chávez a Lula, passando por Dilma, que segundo Diogo nem se elege. De novo, o articulista é superficial e equivocado nas causas que estariam levando a “esquerda real” latino-americana a essa derrocada. Diz Mainardi em seu artigo que “a esquerda na América Latina está encrencada”. E conclui seu texto apontando os motivos da encrenca:

“Hugo Chávez deflagrou uma guerra contra o PlayStation. E Lula está sendo apagado da memória. A média de espectadores de Lula, o Filho do Brasil foi menor do que a dos jogos do Macaé. Dilma, sua candidata presidencial, está destinada à derrota. Porque ela, como Lula, personifica o passado. De fato, ela se assemelha cada dia mais à minha tia Clélia: quanto tempo Dilma ainda poderá durar? Menos de um ano. Menos do que Obama.”

Quer análise mais superficial? A morte política da esquerda na América Latina, que a rigor nem é esquerda autêntica, está vindo a galope não por isso que Diogo aponta, mas por outra razão, a saber: as instituições de defesa e proteção do capital, como o Estado, a política, a mídia etc., ainda estão muito fortes no Continente e ainda não experimentam nenhuma crise séria. E um velado ‘pacto’ foi firmado entre essas instituições do capital e a pseudoesquerda latino-americana, nossa ‘esquerda real’, do tipo: “Ajam como manda o figurino e nós apoiamos e garantimos a eleição de vocês”. (Lula foi, neste aspecto, quem mais fez direito a lição de casa).

Acontece que essa ‘esquerda real’, algum tempo depois de ter chegado ao poder e nele se consolidado, decidiu quebrar tal ‘pacto’ e pôr as garras de fora. A última ação nesse sentido aconteceu no Brasil, em pacotes como esses recentes, dos direitos humanos, no apagar das luzes de 2009, e da obrigatoriedade de distribuição de lucros. Neles, vêm embutidas, por decreto, a flexibilização do direito de propriedade no País e a obrigatoriedade de participação nos lucros, pelos empregados, medidas que não interessam ao capital. São medidas que a direita chama de populistas, mais ou menos como as que Getúlio Vargas adotou e se deu mal há cerca de 50 anos, e que, entendo, vão levar certamente ao ocaso político da esquerda brasileira.

Não podemos esquecer que a tentativa de flexibilizar o direito de propriedade na Venezuela, há alguns anos, balançou o governo Chávez. A maioria da população do país se indispôs, naquele momento, contra seu presidente, e não quis nada daquilo. Além disso, todas as pontas do capital, no Planeta, já estão devidamente amarradas. Não é à toa que Lula tem sido, do ponto de vista capitalista, o melhor presidente de toda a história da República. É impossível hoje em dia qualquer nação pensar em bandear radicalmente para a Esquerda. O menor exagero de um Chávez, por exemplo, será brecado pelo próprio povo venezuelano, é impensável qualquer guinada mais radical nessa direção. As instituições estão muito fortes e nada é capaz de abalar, atualmente, a estrutura capitalista. São risíveis os movimentos e as manifestações que têm como alvo atingi-las.

Getúlio se matou ao ver que suas medidas o levariam à renúncia e à morte política. Lula e Dilma não têm vocação para o suicídio. Ainda não perceberam que insistir nesses pacotes eleitoreiros os levará mesmo ao ocaso político, como prevê agora Diogo Mainardi, se não à morte em atentado, acrescento. O próprio povo brasileiro rechaçará qualquer tentativa mais radical de desestabilizar o Estado de Direito e de suprimir o direito de propriedade. Se não o fizer, as instituições o farão, antes que seja necessário um novo golpe de estado.

Portanto, está certo Mainardi nas previsões, apesar de toda sua superficialidade ao apontar as causas daquilo que prevê em seu artigo: por estes motivos que acabo de expor e não pelos que Diogo aponta em seu texto, a chama de Lula começa mesmo a se apagar e Dilma nem se elege. A não ser que algo de novo surja na cena brasileira, capaz de mudar isso, derrubando ou modificando tais pacotes “contra o capital”, o que acho pouco provável. A guerra já se estabeleceu. Além disso, o cenário que temos é o de novos apertos à vista, em razão da recente recaída da crise na Europa e nos EUA. E isto com certeza vai respingar nas campanhas eleitorais de 2010, principalmente em Dilma. Nada mais teremos além disso no Hemisfério Sul.


Por fim, Diogo erra em seu artigo ao dar a entender que o Planeta não corre risco de destruição ambiental porque não há superaquecimento: a temperatura na Terra, segundo ele, estaria caindo e não se elevando. Diogo também não sabe: não é só o superaquecimento que vem pondo em risco a vida no Planeta, mas sim toda a devastação ambiental derivada da ação do capital.

Cada produto posto à venda implica destruição em todos os sentidos, especialmente de riquezas e recursos naturais. Um único automóvel significa aproveitamento de minérios, metais, tudo quanto é tipo de riqueza natural, e produz mais destruição do que qualquer superaquecimento, uma vez que, além de tudo, concorre para a poluição do ar e da água. Só de automóveis, temos milhões percorrendo as ruas e rodovias do mundo. Não é o homem, mas o homem regido pelo capital (o homem-capital) que está acabando com a vida no Planeta, tornando-o inabitável. Dizia Michael Jackson, é preciso fazer alguma coisa já para que pelo menos seja detido em parte esse processo, do contrário a vida na Terra acabará mais cedo do que se imagina.
 
 Tom Capri.
 
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Publicado por em fevereiro 20, 2010 em Uncategorized

 

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