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OSCAR: RAZÕES DA DERROTA DE AVATAR – TOM CAPRI

10 mar
Está muito claro por que Avatar foi derrotado por Guerra ao Terror, vencedor do Oscar 2009 na categoria “melhor filme”. Escrito e dirigido por James Cameron, Avatar ousou mostrar pela primeira vez na história do cinema, como vilão, o homem conduzido e regido pelo capital, esse de nossos dias. Até aqui, Hollywood o vinha mostrando como herói, exatamente como em Guerra ao Terror, dirigido por Kathryn Bigelow, ex-esposa de Cameron. Os dois, Cameron e Bigelow, levaram a discussão sobre a luta de classes para dentro de casa. E, com posições contrárias, mantiveram aceso o conflito


 enquanto o casamento durou e mesmo depois do divórcio, ele com Avatar, ela com Guerra ao Terror. Não seria surpresa para mim se esse conflito de visões de mundo opostas não tivesse sido também a causa da separação.

Avatar é assumidamente filme-denúncia. Desnuda didaticamente e em 3D a destruição que o homem-capital vem causando no Planeta. Refiro-me ao homem regido pelo capital, esse que vinha aparecendo sempre, até aqui, como o grande herói dos filmes de Hollywood. Já Guerra ao Terror é a glorificação desse mesmo homem-capital. O Oscar de melhor filme já estava quase nas mãos de Avatar quando, ao soar do gongo, surgiu Guerra ao Terror para salvar o capital. Em resumo, Guerra ao Terror foi o Collor que encontraram em Hollywood para salvar a direita no apagar das luzes.

Quem melhor captou isso, na nossa mídia, foi o Caderno 2 de hoje do Estadão. Não deixe de ler os textos de Ubiratan Brasil (primeira página do Caderno), Luiz Carlos Merten (página D5) e Luiz Zanin Oricchio (na mesma página D5).

O ponto alto do Caderno 2 é o comentário “E ganhou a máquina de guerra”, de Luiz Bolognesi, roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade. O subtítulo do artigo diz tudo: “Filme vencedor (do Oscar) transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos.” Reproduzo abaixo o comentário de Bolognesi, para enriquecer o debate. 

 Tom Capri.
E GANHOU A MÁQUINA DE GUERRA

Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos

De Luiz Bolognesi, especial para o Estado
Caderno 2 de 9/3/2010, página D4

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.
Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o “povo da floresta”. A certa altura, eles reúnem todos os ”clãs” para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?
Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do “ao vencedor, as batatas”, Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.
Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.
Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.
Então há tempo.
Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.
No filme de Cameron, os na”vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.
Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade.
 
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Publicado por em março 10, 2010 em Uncategorized

 

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