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A DESORDEM MONETÁRIA INTERNACIONAL

13 abr

O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÊNIO GUDIN

Artigo publicado no jornal “O Globo” do Rio de Janeiro, edição de 17/09/73
O pecado original que deu lugar à crise monetária internacional que
ainda perdura foi, como se sabe, o de terem os Estados Unidos abusado
do privilégio de que gozava o dólar, de ser também moeda
internacional, como tal recebido e aceito pelo mundo afora.

Os Estados Unidos esbaldaram-se despejando dólares no mundo
 
através da guerra do Vietnam e de enormes investimentos na Europa
 além do fluxo habitual de turismo. A enorme massa de
dólares que ficou ricocheteando pela Europa de país a país
tem grande responsabilidade na inflação que se
infiltrou na Europa onde atingiu 7% e 8% e mais ao ano, em países de
ordem monetária tradicional como Suíça e Alemanha Ocidental.
O que há de curioso na presente conjuntura é que o dólar se depreciou
muito mais internacionalmente do que dentro dos Estados Unidos. A taxa
de câmbio atual do dólar em termos de marco alemão (julho de 1973) é
de apenas de 2,38 marcos por dólar, mas um dólar nos Estados Unidos
tem um poder de compra equivalente a 3,17 marcos. Igualmente, a taxa
de câmbio na Suíça é de 2,86 francos suíços por dólar, entretanto um
dólar compra nos Estados Unidos o equivalente a 3,90 franco suíços.
É um caso típico de desvio da paridade do poder de compra, oriundo de
itens outros que não os referentes a mercadorias, especialmente
transferência de capitais.
A inflação nos Estados Unidos, a partir de 1965, foi em parte uma
inflação de demanda oriunda de vastos déficits orçamentários (RS$ 25
bilhões em 1972, ora estimado em US$ 15 bilhões para 1973), e em outra
parte, uma inflação de custos por elevação excessiva de salários em
anos recentes (ferroviários 42% em 42 meses, siderúrgicos 30% em 3
anos, General Motors, etc), além da inflação de caráter internacional
oriunda das recentes desvalorizações do dólar que encarecem os preços
das mercadorias importadas.
Mas a inflação na Europa, oriunda basicamente da expansão de crédito
vinda do excesso de dólares flutuantes, não ficou atrás da dos Estados
Unidos.
O atual desequilíbrio monetário internacional é devido muito mais aos
movimentos de capitais do que às disparidades inflacionárias entre os
Estados Unidos e a Europa. Os Estados Unidos, aparentemente mais
preocupados com sua atividade econômica interna do que com seu balanço
de pagamentos, mantém taxas de juros reputadas baixas, pouco atraentes
portanto para dinheiro do exterior.
Por outro lado, a falta de confiança no dólar fez com que a esperada
 repatriação de dólares depois da desvalorização não se verificasse.
 A demanda de dólares por parte das empresas americanas
 e das empresas multinacionais, bem como dos árabes do
 petróleo, não tem correspondido à expectativa.
Do lado das mercadorias (balanço de comércio) a situação está
melhorando com o grande encarecimento dos artigos importados à nova
taxa cambial; por exemplo, um Volkswagen que custava US$ 1.900,00
passou para US$ 2.300,00. Os algarismos do balanço comercial continuam
a melhorar conquanto as exportações não tenham tido o impulso que se
poderia esperar. Por outro lado, a importação de petróleo cresceu em
volume e em preço; os turistas americanos continuam a voar para o
exterior mesmo com preços vinte e cinco por cento mais altos; 600 mil
militares no estrangeiro e os empresários americanos continuam a
exportar capitais.
Em artigo escrito, neste jornal, em setembro do ano passado, sobre a
crise monetária internacional, eu dizia:
“O problema não é fácil nem de rápida solução. Exige muito tempo,
talvez anos para sedimentar-se em um consenso generalizado”.
A hipótese de nova volta ao padrão-ouro está fora de cogitação. A
crise atual, se de um lado desprestigiou o dólar, serviu, de outro,
para mostrar como o ouro é sujeito às influências da especulação e das
variações do volume produzido, o que o torna impróprio para servir de
padrão de valor para todas as moedas.
Donde se vê que as perspectivas de curto prazo não são animadoras. Nem
o projeto Nixon round, de reduções tarifárias, nem a reunião de
Nairóbi do FMI, em setembro, nem a Comissão dos Vinte (nem que fossem
40) solucionarão o caso.
O único remédio é o esforço persistente – sobretudo dos Estados Unidos
– para restabelecer a confiança no dólar e o equilíbrio de seu balanço
de pagamentos, ao nível da taxa cambial que for.
Vencida essa primeira etapa é que se poderá organizar um novo esquema
monetário internacional.
Ricardo Bergamini
 
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Publicado por em abril 13, 2010 em Uncategorized

 

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