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POLÊMICAS

24 jun

Saramago/Democracia,

Kaká/Juca Kfouri,
Rita Cadillac/Moral,
Cala a boca/Galvão
 e Maradona/Pelé
É evidente que estou do lado de Dunga no seu entrevero com a Globo, de Saramago na sua visão de democracia, de Juca Kfouri no seu embate com Kaká, de Rita Cadillac contra a moral que aí está, de Galvão Bueno no “cala a boca, Galvão” e de Maradona na sua eterna disputa com Pelé. Eu sei, não tem a menor importância de que lado estou nisso. Mas é de suma importância conhecer as razões pelas quais estou do lado que estou. Aí vão as razões.
Dunga/Globo
No incidente da Globo com Dunga, fico do lado do treinador. Ainda não tenho total certeza se tudo aconteceu como chegou a mim, pois a mídia já começou a abafar o caso, ainda que os vídeos estejam correndo soltos pela Internet. Mas, se de fato aconteceu assim, Dunga está coberto de razão. Pelo que vi e li, a Globo quis entrevista exclusiva com jogadores. Dunga teria brecado. A Globo teria insistido, alegando contrato (com Ricardo Teixeira) que lhe dava direito a exclusivas. Dunga teria batido pé e dito que, se Teixeira insistisse naquilo, deixaria o cargo.

Se foi assim, palmas para Dunga. E é fácil entender por que o caso já começou a ser abafado. Se o Brasil vier a perder a Copa, a Globo poderá pagar o pato como a causadora de mais um vexame brasileiro. Além disso, a Rede detém os direitos de transmissão dos jogos e os repassou de uma maneira light a outras emissoras, que, se abrirem a boca, podem não só perder esses direitos como vir a engrossar as fileiras dos acusados de ter provocado eventual eliminação brasileira.

Tenho criticado Dunga, mas não sou daqueles que só veem defeitos nele. Pelo contrário, vejo qualidades que poderão até nos levar ao título. Já disse, em artigo, que a Seleção dele é, por exemplo, infinitamente melhor que a burra de 2006 de Parreira. Mas já disse também que, se confrontarmos prós e contras, os contras superam os prós, e o Brasil está mais perto de não ganhar a Copa.

Ademais, vejo muita instabilidade emocional em Dunga, que na verdade deveria ser chamado de Zangado. Além de tudo, o despreparo do treinador para as questões essenciais da vida é gritante, a ponto de não sabermos se ele é mesmo deste mundo. Mas passei a gostar mais dele depois do episódio com a Globo. Pelo menos, é homem de palavra que vê a solidariedade como dado essencial, e isto ninguém pode desprezar.

Saramago/Democracia

Não sei muito de José Saramago nem gosto tanto. Sei por exemplo que Saramago — como Juca Kfouri, de quem vou falar mais adiante, de sua polêmica com Kaká — também era ateu. É o mínimo que um ser humano deve ser, no século 21, posto que a religião é o maior cancro da humanidade, discussão evidentemente para outro dia.

Sei também que, embora se dissesse marxista e comunista, Saramago não entendeu nem Marx nem o comunismo, conversa também para outro dia. Mas Saramago chegou muito próximo de entendê-los plenamente. Sua visão de democracia, por exemplo, ainda que imprecisa, bate muito com a científica e verdadeira de democracia.

Para Saramago, a democracia tornou-se mero instrumento do poder financeiro, o que deve ser entendido como “instrumento do capital”, e por isto precisa ser combatida. Isto é em parte verdade, verdade científica. O ponto impreciso de Saramago: dizer que “a democracia tornou-se”, quando, na verdade, desde que o capitalismo globalizou-se, ela, em vez de tornar-se, sempre foi instrumento de defesa e proteção do capital.

A democracia nasceu na Grécia já como instrumento de defesa e proteção das classes dominantes de então. Nunca foi, desde aquela época até hoje, o governo do povo, pelo povo e para o povo. Na Grécia Antiga, o povo eram os escravos, que não tinham vez nem direito a nada. Nem seres humanos eram! Só os cidadãos — os detentores de escravos e proprietários de terras — tinham direitos na democracia grega, inclusive a voto. E a escravidão era prevista em lei então criada pela democracia grega.

Na verdade, a democracia foi a única forma encontrada, pelas classes dominantes gregas de então, capaz de equacionar a questão da propriedade das terras e dos escravos, ou seja, o único instrumento capaz de evitar que os proprietários de terras e de escravos daquele período se engalfinhassem pelos espaços e pela posse de escravos, levando à concentração e aos monopólios. Quem era proprietário de menor porte não queria perder a boquinha, a democracia caseira grega salvou-o de perder o que possuía, deixando de lado, evidentemente, o povo, ou seja, os escravos.

De lá para cá, não houve evolução na democracia nem no seu conceito. As classes dominantes que foram surgindo, a partir de então, sempre mantiveram a democracia como mero instrumento de dominação e conservação da estrutura de classes.

Assim, todas as democracias que temos hoje, da Europa aos Estados Unidos, têm esse perfil: não passam de instituições de defesa e proteção do capital. É ingênuo quem não vê assim. Saramago enxergou, só errou ao achar que a democracia havia se tornado algo assim, quando na verdade ela sempre foi essa farsa.

Saramago também jamais percebeu que, enquanto houver sociedade de classes, seja de talhe capitalista ou não, não poderá haver democracia autêntica, como essa idealizada pelo senso comum: sempre, as classes dominantes irão se valer da democracia para fazer prevalecer seus interesses, deixando de lado o povo. Saramago imaginava que, ao contrário, o “poder financeiro” (o capital) apenas havia desviado a democracia de seu rumo correto e que era preciso reconduzi-la ao rumo certo, noção que é equivocada.

É fato, nas democracias o povo geralmente pode votar, mas se ilude ao achar que escolhe em quem votar. Quando não há aquela peneira para “selecionar” previamente o candidato, como no bipartidarismo dos Estados Unidos, o “eleito pelo povo” é obrigado a se curvar depois às vontades do capital (ou ao “poder financeiro” de que fala Saramago) e abrir mão de todas as causas que sempre defendeu.

Vide Lula, que só se elegeu porque, antes, fizera pacto com o capital, do tipo: nós elegemos você, mas em troca você nos oferece sua alma e não dará jamais um único passo em defesa das grandes causas que sempre abraçou. Hoje, Lula no máximo consegue apoiar o Irã a ter um dia a bomba atômica, o que não é pouco, mas está longe de ser aquela que empunhava a bandeira do socialismo e prometia acabar com a fome no País.

Kaká/Juca Kfouri

Juca Kfouri está coberto de razão, o “merchan” que Kaká faz de sua cruzada evangélica, além de muito chato e ingênuo, é de doer. Kaká era um garoto franzino de pernas finas que chorava quando tomava pancada, no início da carreira no São Paulo. Por causa disso, Vampeta passou a chamar os são-paulinos de Bambis.

Mas Kaká foi jogar na Europa, onde ganhou massa muscular, aprendeu a marcar e roubar a bola e a armar com precisão, além de finalizar muito bem de longa distância e dar aqueles arranques fulminantes, tornando-se versátil jogador moderno. Sua evolução o levou ao ‘posto’ de “melhor do mundo”, e hoje sou fã de seu futebol.

Começa que a religião é o maior cancro da humanidade. Se é desejo de todos nós salvar a vida no Planeta, especialmente a humana, temos de banir a religião o quanto antes, como já aconteceu na China, e não apregoá-la, como deseja Kaká. O jogador deveria dar bom exemplo, não mau. Já que não dá bom exemplo, que pelo menos que respeite a religião dos outros, no que Juca Kfouri tem razão.

Está certa a Fifa de impedir esse tipo de “merchan” nas Copas. Qualé, Kaká? Se a Fifa abre para você, tem de abrir para todo mundo. Já pensou a Copa infestada de “merchan” de Jesus, Maomé, Buda, Krishna, Edir Macedo, Sônia Hernandez, pastor Valdomiro, o que o valha? Que estrago para a humanidade, hein?

Isto que Juca Kfouri condena em você, eu também condeno, e toda a humanidade deveria condenar. E não é um desrespeito à sua religiosidade, mas sim respeito à religiosidade dos demais, ainda que Juca seja ateu.

Rita Cadillac/Moral

Fui ver “Rita Cadillac – A Lady do Povo”, documentário de Toni Ventura. Chorei do começo ao fim. Em parte porque, aos 61 anos, virei manteiga derretida. Mas muito mais por causa de meu passado. Não fui apaixonado por Rita, mas por outra chacrete, Kátia (nome de guerra), no começo dos anos 70. Conheci Kátia no “Jussara”, bar-boate da Nestor Pestana (não existe mais). Ficamos um tempão juntos, por pouco não casamos.

Como Rita, que a moralidade instituída ainda condena, Kátia também se prostituiu na mesma época em que era chacrete. Sua carreira ao lado de Rita Cadillac no Chacrinha durou dias. Desde os 13 para 14 anos, até me casar aos 24, convivi com as prostitutas de Curitiba muito mais do que Jorge Amado com as da Bahia de sua juventude.

Kátia tinha história de arrepiar. Linda, corpo invejável quanto o de Rita Cadillac, ela um dia conversava com uma prima na frente de um daqueles prédios de poucos andares na Barra Funda, quando parou um galã qualquer no seu carrão e as chamou para um papo. Final dos anos de 1960, ela lá pelos seus 15 anos, a prima mais velha que ela.

Ingênuas, as duas entraram no carro. Depois de algumas voltas, pararam num casarão. Entraram e nele permaneceram trancafiadas por mais de mês. Ali, foram diariamente estupradas por noves rapazes, num longo revezamento, todos os dias.

O caso foi parar nos jornais, as duas eram dadas como desaparecidas. No momento em que foram libertadas em São Paulo, tinham perdido a voz. Quando conheci Kátia, ela já havia recuperado a fala, mas carregava no erre, com dificuldades para se expressar. Àquela altura, já era mãe de uma filha (de dois anos) fruto de um namoro, três anos após os estupros. Ia muito com ela e a filha a um parquinho de diversões que havia na Augusta, próximo da Estados Unidos.

Na época, não havia aids, mas já havia camisinha, só que prostituta não usava. Um dia, Kátia me passou doença. Eu disse que ela deveria tomar mais cuidado. Discutimos. E por fim nos separamos. Era apaixonado por ela, mas aquilo me fez acreditar que precisava mudar de vida. Estava com 23 anos, bebia e fumava feito louco, já como repórter, na redação do velho Estadão. Fiquei tentado a voltar inúmeras vezes, mas — moralismo barato — resisti, achando que teria de tomar outro rumo.   

A doença foi o que bastou para eu achar que tinha de mudar radicalmente. Sete casamentos vieram depois (dois de papel passado, com divórcio em português e em inglês — nos EUA), e fui aos poucos percebendo que Kátia era a mulher de minha vida e que eu não deveria tê-la largado. Ela telefonava quase que todos os dias, eu tratava bem, mas resistia. Até que, um dia, mais de ano depois, não agüentei e fui atrás. O porteiro do “Jussara” me disse que ela havia casado e ido morar com um fazendeiro rico no Mato Grosso. Ainda guardo as fotos dela, nunca mais vi Kátia.

Ao assistir ao documentário de Rita Cadillac, fui vendo o filme de minha vida com Kátia passar de novo na minha frente, como se tudo tivesse acontecido naquele dia. Rita também enfrentou tudo pelo que passou Kátia. Com agravantes como ter sido separada do filho ainda pequeno para só reencontrá-lo com nove anos. Teve de se prostituir e até de fazer filmes pornográficos para pagar as contas. As duas são sobreviventes, até hoje não entendo como não enlouqueceram. Algo me diz que, se fosse eu no lugar de uma delas, hoje estaria, se vivo, num manicômio qualquer falando sozinho. Dá para entender por que chorei durante todo o filme?

Cala a boca/Galvão

Tá errado. Não deveria ser “Cala a boca, Galvão”, mas sim “Fala mais, Galvão”. Galvão não é nenhum João Saldanha da crônica esportiva, mas também não é um pé rapado qualquer. O único problema de Galvão é que ele trabalha para a Rede Globo, que, endividada em bilhões, luta com unhas e dentes para não perder a liderança de audiência, o que vem ocorrendo a galope e pode levar a emissora à falência.

Preso a esta camisa-de-força, Galvão não pode ser jornalista autêntico no jornalismo que faz na Globo, se é que podemos chamar aquilo de jornalismo. Ou seja, tem de esconder ou omitir muitas das verdades para não se prejudicar nem prejudicar a própria Globo. Galvão é um arquivo exposto às mais variadas intempéries. Ele sabe de todos os rolos entre a CBF e a Rede Globo.

Ele sabe, por exemplo, que a Fórmula 1 virou uma farsa, que os brasileiros já “morreram” dentro da categoria e não vão conquistar tão cedo um título mundial. Sabe que Felipe Massa já está condenado na Ferrari (renovou contrato com a escuderia, com a “Cláusula Barrichello”, que o obriga a ser ‘escada’ de Fernando Alonso). Também sabe que, hoje, só é piloto número um aquele que mais enche os cofres da equipe. Só que Galvão está impedido de falar. Vive sob censura.

E ainda assim a turma grita “cala a boca, Galvão”? Não é à toa que Galvão gostou da brincadeira e até já a incorporou ao seu folclore. Não era para ser o contrário, do tipo “fala mais, Galvão”?

Maradona/Pelé

Neste caso, sou muito mais Maradona do que Pelé. Os dois registram em comum o fato de terem sido gerados em meio à pobreza. Mas Maradona entendeu muito mais a miséria de onde veio do que Pelé. Pelé passa para a História como o melhor jogador até aqui. Maradona passa para a História como o mais lúcido entre os melhores jogadores da História. E também como o mais divertido, o mais humano, o politicamente mais incorreto, o mais mais em tudo o mais.

Pelé sempre se comportou direito, porque sucumbiu ao mainstream e ao establishment, ainda que tenha gritado a favor das criancinhas do Brasil nos anos de 1970, o que até soou demagógico na época. Maradona nunca primou pelo bom comportamento, sempre foi avesso ao moralismo vigente e, rebelde, sucumbiu às drogas por razões que devem ser bastante justificáveis, mas que nunca ninguém se interessou em vasculhar (talvez, Fidel Castro). Por isso, é politicamente mais lúcido e engajado do que Pelé.

Pelé tem um monte de coisas que Maradona não tem. Maradona não quer ter um monte de coisas que Pelé tem. Apesar disso, Pelé tem muito mais ciúme de Maradona do que Maradona de Pelé. Tempo atrás, o brasileiro disse que El Pibe não prestava como técnico. Sim, disse na época em que a Argentina estava muito mal, pelas mãos de Maradona. Mas disse porque não conseguia conter o ciúme. E Maradona guardou. Se Pelé é o mais ciumento dos dois, Maradona é o mais rancoroso, como um autêntico argentino.

Dá para entender Pelé e toda sua ciumeira. Muito provavelmente bisneto ou tataraneto de escravos, herdou toda aquela carga psicológica e emocional que até hoje vem derrubando, por razões sociais bem concretas, a autoestima do negro, no Brasil. E até que Pelé se deu bem, nessa rebordosa. É outro que não enlouqueceu e ainda está inteiro, acho que porque comeu as loiras mais gostosas do País, o que não é fácil para um negro brasileiro.

De qualquer forma, Pelé deveria abrir menos a boca, ou melhor, deixar de ser um grande poeta quando de boca calada, como disse Romário. Todo o peso de sua negritude não justifica mais esse ciúme exagerado que tem de Maradona.

Também dá para entender todo o rancor de Maradona. Se ele enveredou pelas drogas, foi certamente porque fraquejou diante de seus demônios e se deixou dominar. Quando alguém diz, dele, que não presta e é incompetente, seja no que for, isto deve calar fundo e ferir com muita dor. Mas, na idade em que está, superados seus maiores problemas, como o envolvimento com a droga (suponho que isto já esteja superado), era hora de Maradona ter parado com essa frescura de “perdoo Platini, não Pelé”. Tanto o ciúme exagerado de um quanto o rancor exagerado de outro não se justificam mais. Cresça, Pelé! Cresça, Maradona!  

 Tom Capri.





 
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Publicado por em junho 24, 2010 em Uncategorized

 

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