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Críticas a Celso Ming e ao setor imobiliário

14 ago

 

 
Celso Ming erra sobre
a indústria imobiliária,
e a culpa não é dele, é
das novas gerações de
líderes do setor, que
ainda desconhecem
A Abdul Massih Waquil, que começou toda essa história,
inaugurando nova era no setor imobiliário
Sou fã de Celso Ming, já disse isto aqui algumas vezes. Se fôssemos de sexos opostos, eu já teria dado em cima dele. Se torcêssemos pelo mesmo clube (ele é Ponte Preta, eu Corinthians), iríamos sempre juntos ao estádio. Celso é o que há de melhor na mídia brasileira, quando se trata de analisar e comentar a economia. É o único que tem uma visão assim superlativa desse complexo universo, mais ampla ainda que a de Delfim Netto. Quem não o lê não sabe o que está acontecendo na área. Mas mesmo Celso Ming também erra, como acaba de fazer em recentes abordagens sobre o setor imobiliário.

E não é por culpa dele, mas sim da nova geração de lideranças do setor, que perderam um pouco a mão e estão descontinuando o sério trabalho de elucidação e esclarecimento iniciado pela geração mais velha, formada por Abdul Massih Waquil, recém falecido, Paulo Germanos, Romeu Chap Chap, Samuel Kon, Luciano Wertheim, Luiz Carlos Pereira de Almeida, Adopho Lindenberg, Raul Leite Luna e Omar Maksoud, entre outros.
Em recentes abordagens sobre crescimento econômico e potencial de abertura de vagas do setor imobiliário (ver colunas dele no Estadão de 10/6 e de hoje, 13/8), Celso Ming deixa claro que mesmo o maior avanço da indústria imobiliária e da construção contribui muito pouco para o aumento da capacidade produtiva do País. Isto é, o setor imobiliário, segundo ele, não contribui com a abertura de vagas na intensidade que se imagina e se propala nem é a locomotiva capaz de alavancar o setor produtivo.
Este enorme equívoco de Celso seria imperdoável se a nova geração de lideranças do setor tivesse dado continuidade a esse trabalho pioneiro de elucidação e esclarecimento da atividade, inaugurado nos anos de 1970 pelas velhas gerações.
Tão logo assumiu a presidência do Secovi-SP – Sindicato da Habitação (de 1970 a 1978), Abdul Massih Waquil iniciou esse contundente e poderoso trabalho de elucidação e esclarecimento à população, tentando provar cientificamente, com dados concretos, que a produção imobiliária é justamente o contrário do que diz Celso Ming.
Na época, dois espectros rondavam a indústria do setor: ela era a grande vilã da economia (acreditavam que estava nas mãos de meia dúzia de “especuladores imobiliários”) e muito pouco contribuía para o aumento da capacidade produtiva do País, como creem até hoje Celso Ming e a grande maioria dos jornalistas, inclusive os mais proeminentes como ele.
Waquil e seus diretores mais próximos, como Paulo Germanos e Romeu Chap Chap, tinham em mente que, ao contrário, se tratava do setor mais importante da economia, por ser sempre o que mais concorre para a abertura de vagas (direta e indiretamente) e o que mais proporciona aumento da produção, pelo seu efeito multiplicador. Essas lideranças já tinham ouvido De Gaulle dizer que “quando a construção vai bem, tudo vai bem” e sabiam que esta virtude dela era dado científico.
Um dia de 1977, Romeu Chap Chap, então diretor do Secovi-SP na gestão de Waquil, foi à redação do Estadão para se queixar disso. Dizia que as lideranças do setor eram vistas como “especuladores imobiliários” e nem eram respeitadas e atendidas pela mídia. Coube a mim, então repórter de economia, fazer a matéria. Ouvi todos os lados e publiquei reportagem de página, derrubando essas falsas noções.
Waquil então me convidou, via Romeu, para ser o assessor de imprensa do Secovi-SP. De lá para cá, eu sempre como pivô, pusemos em marcha essa luta para resgatar a dignidade que, por justiça, o setor imobiliário sempre mereceu ter. Em todos os textos que passamos a divulgar — palestras, discursos, artigos assinados, releases à mídia etc. — e também em todas as entrevistas, o foco era sempre esse: a recuperação da dignidade do setor, até então nunca ouvido nas suas demandas e reivindicações.
E tais objetivos foram todos alcançados. Hoje, o setor é respeitado na mídia, as lideranças são entrevistadas e ouvidas por todas as esferas governamentais, e o setor não é mais considerado o vilão da economia. Dirimiu-se a imagem que tinha, de especulador. Mudamos a história do setor imobiliário brasileiro.
            Todo esse empenho acabou por ajudar o Estadão a sair das dificuldades financeiras por que passara após a construção de sua sede na Marginal do Tietê. Aquela minha reportagem, e mais tantas outras que vieram em seguida em toda a mídia, graças ao empenho de toda aquela velha geração, acabou por consolidar o Estadão como o grande veículo do setor imobiliário.
Aumentou, a partir daí, consideravelmente, o volume de anúncios e classificados da área, e hoje o jornal é o preferido do setor: lidera o volume de espaço publicitário dedicado à área imobiliária. E o Estadão sempre soube separar isso da parte editorial. Até hoje, reivindicamos mais espaço para as informações do Secovi-SP e da Fiabci/Brasil, eles publicam menos que a Folha, por exemplo.
            Também esses empresários emergiram como lideranças do setor em âmbito nacional, ganhando expressão e sendo respeitadas por toda a mídia, a exemplo de Romeu Chap Chap e outros. Nos anos de 1970, quando essas lideranças surgiram, nenhuma delas imaginava que um dia isso poderia se tornar realidade.
Só que esse trabalho ainda não foi completado. Volta e meia, aparece alguém na mídia referindo-se ao setor como “especuladores imobiliários”. E isto acontece porque as lideranças da nova geração mal sabem que toda essa luta se travou no passado e que é preciso dar continuidade a ela, para que seja plenamente vitoriosa.
Ainda é preciso sacramentar e consolidar a verdade de que o setor imobiliário, além de ser a principal atividade em todas as economias, é no Brasil uma das mais saudáveis: com predominância de capital nacional, é a mais pulverizada e democrática (não tem monopólios) e registra volumes mínimos de remessa de lucro em proporção à sua participação no PIB. Portanto, é a que mais benefícios traz à nossa economia, daí merecer todo esse apoio.
Entrei nessa briga não para ganhar mais, como correu à época na redação do Estadão, mas por puro idealismo. Gentil mortal de esquerda, como disse Goethe de seus filhos, sempre me pautei pela defesa de meus ideais em qualquer atividade que exerci. Até porque o setor imobiliário não me pagou nem 1/1000 do que fiz por ele até aqui, e eu nunca me preocupei com isso.
Onde Celso Ming tem errado? Não é que a indústria imobiliária e da construção seja, por si só, a maior contratadora de mão de obra e a que mais alavanca a produção (hoje, isto estaria sendo garantido muito mais pelo setor de serviços, segundo Ming). Não. A indústria imobiliária e da construção é, sim, tudo isso que acabo de expor — o que, aliás, já está até cientificamente comprovado — pelo seu efeito multiplicador, como já disse aqui.
A velha geração, tendo eu como pivô totalmente envolvido e comprometido, focou sua luta nisso: em mostrar que o empreendedor e o empresário do mercado imobiliário nunca são o “especulador” e que, ao contrário do que diz hoje Celso Ming, este é o setor mais importante de qualquer economia, o que já é suficientemente reconhecido nos países de Primeiro Mundo, mas não ainda de todo no Brasil.
Comprove: um único imóvel construído e vendido faz girar toda a economia. Se for comercial, quem vier a usá-lo terá de mobiliá-lo, o que implicará comprar de tudo, de tapete a computador, produtos para os lavatórios etc. Terá até mesmo de lançar mão de todos os meios de transportes para ir ao trabalho. Um executivo sem um carro não é um executivo. Se for imóvel residencial, o morador terá igualmente de comprar de tudo: um carro para se transportar, todo o mobiliário dos cômodos, os mais variados produtos de decoração e jardinagem, entre zilhares de outros.
O que é isso senão proporcionar a abertura do maior número de vagas nos mais variados setores e impulsionar e alavancar toda a produção?
Além disso, a pecha de “especulador imobiliário”, então atribuída aos agentes diretos do setor (empreendedor e empresário etc.) — imagem que ainda persiste em nossos dias, embora com muito menor intensidade — sempre foi falsa e descabida. As antigas lideranças sabiam que, se havia especulação imobiliária, ela não era de responsabilidade dos agentes diretamente envolvidos no setor — especialmente, dos empreendedores e empresários —, mas sim de gente que dele poderia se aproveitar para especular.
Também tinham em mente que a produção imobiliária é uma atividade capitalista como outra qualquer, em que se visa, sim, ao lucro, mas que produz em meio às condições e à infraestrutura que herdam do poder público. Não são o empresário e o empreendedor imobiliários, com suas edificações, os causadores de problemas urbanos, como os de trânsito e de poluição etc. O que os causa é a falta de condições que o agente imobiliário herda dos poderes públicos, quando precisa construir.
As velhas gerações igualmente sabiam, mais do que as de hoje, que o setor imobiliário é o responsável pelo avanço do capitalismo, em todo o Planeta. Sim, são conscientes de que a mais recente crise financeira mundial começou no setor imobiliário, mas por causa dos abusos na alavancagem de derivativos (títulos podres).
Em recente artigo publicado na coluna da Fiabci/Brasil de terça no Estadão (6/7), o presidente da entidade, Ricardo Yazbek, um dos raros da nova geração que tem essa visão superlativa do setor — e a quem atualmente presto assessoria e que ingressou na vida sindical justamente no período de Waquil — esclareceu bem esta questão:
“Especular é reter mercadoria visando à sua valorização futura. A produção imobiliária, ao contrário, é pautada pela demanda por habitação. Terreno não é estoque, é insumo de produção adquirido para um projeto que deve ser aprovado, vendido e construído no mais breve intervalo de tempo. O empreendedor e o empresário do setor imobiliário nem têm como especular.”
O problema é que as lideranças dessa nova geração do setor imobiliário perderam o foco. Nem mesmo sabem que houve essa luta toda no passado e muito menos que ela continua. Nem sequer têm consciência, como Celso Ming, de que o setor é assim pujante, como a principal atividade de todas as economias. Aí estão Celso Ming e muitos outros provando que a luta pela elucidação e esclarecimento ainda é necessária. Tenho estimulado Romeu Chap Chap a escrever um livro sobre isso, mas ele não me ouve. Hora de acordar. Abraços a todos, Tom Capri.

 

 
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Publicado por em agosto 14, 2010 em Uncategorized

 

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