RSS

ARTE E CIDADANIA NO PARÁ

05 out
por Ana Carolina Pimenta
foto Alexandre Moraes/UFPA
Corpo, voz e emoção. Com essa matéria-prima, a professora Inês Antonia Ribeiro, da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), e a equipe do Projeto “Preamar Teatral: arte, formação e cidadania nas escolas públicas das ilhas de Belém” têm transformado as rotinas dos estudantes e professores das ilhas de Belém.
Por meio de técnicas, como contação de histórias, jogos teatrais e improvisação, o Projeto de Extensão do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da UFPA tem levado, desde janeiro deste ano, oficinas teatrais às Ilhas do Combu e de Caratateua. Atuando em um eixo paralelo, o Preamar Teatral também estende suas atividades ao Espaço Acolher da Santa Casa de Misericórdia do Pará, que atende vítimas de escalpelamento.

Nas escolas ribeirinhas, durante a intervenção do Preamar, as salas de aula se convertem em laboratórios de vivência. O cenário é a vasta vegetação e o rio ao longe. O roteiro é criado de forma colaborativa pelas crianças e adolescentes. Atores e plateia se confundem. No que se refere à produção e à criação de textos teatrais, o que conta é a experiência direta das crianças.”Não trazemos nada pronto. Tudo é construído e repassado a partir do que os alunos vão contando e demandando na hora”, explica a professora Inês Ribeiro, coordenadora do Preamar.

Os alunos e educadores da Unidade Pedagógica da Ilha do Combu, a apenas 20 minutos de barco de Belém, estão entre os contemplados pelo Preamar. Nesta escola, a equipe do Projeto utiliza o teatro como ferramenta didático-pedagógica, repassando, de modo lúdico e interativo, noções de cidadania, meio ambiente e organização do corpo no espaço.  A professora Inês Ribeiro identifica, por exemplo, que as crianças de seis e sete anos têm problemas referentes à lateralidade, com dificuldades de percepção entre direita e esquerda.

Desta forma, ela inclui em sua dinâmica uma canção sobre uma antiga lenda indígena. “Pela música, pela dança, elas aprendem sem saber que estão sendo ensinadas”, diz a professora, que ressalta os resultados positivos alcançados pelas técnicas teatrais quando introduzidas nas aulas, uma vez que é por meio da experiência de atuação direta com o corpo que o aluno-ator aprende a se reconhecer.

Formação continuada para professores da rede pública

Outro ponto trabalhado é a valorização da cultura ribeirinha. Na Semana do Folclore, por exemplo, as lendas foram contadas e dramatizadas pelos alunos. A professora Inês Ribeiro conduz, mas não induz as crianças. A imaginação delas remete a histórias riquíssimas em detalhes, sempre resgatando o imaginário caboclo.  As crianças se empolgam e a história vai sendo construída. Todos têm um tio, uma prima, um vizinho que já foi engolido pela “Cobra grande”, ou assombrado pela “Matinta Pereira” ou que já tenha levado uma lição do “Curupira”.

Paralelamente à ação com os estudantes, a equipe do Preamar Teatral –  composta pela pesquisadora da ETDUFPA, por quatro estagiários e pelos professores colaboradores Paulo Santanna e Walter Chile – vai interagindo com os educadores locais. Bastante receptivos, os professores da educação infantil e os do ensino fundamental anotam tudo o que está acontecendo, recebem orientações dos técnicos do Projeto e repassam seus conhecimentos sobre a realidade das Ilhas.

Além das oficinas práticas, os educadores recebem aporte teórico para que possam desenvolver suas próprias dinâmicas.

Para a professora Inês Ribeiro, a articulação entre a Escola de Teatro e Dança e as escolas públicas das ilhas de Belém, mediada pelo fazer teatral, possibilita a formação continuada de professores, contribuindo para a ampliação da sensibilidade e para a descoberta de novos caminhos. O objetivo é potencializar as concepções pedagógicas dos educadores, no que se refere aos usos da linguagem teatral, e fazer com que eles se tornem multiplicadores do Projeto.

São grandes os desafios encontrados. O desinteresse e a tendência à dispersão dos alunos das escolas assistidas são apontados pelos integrantes do Projeto como alguns dos principais problemas a serem superados. Segundo o estudante de Pedagogia Breno Monteiro, bolsista do Preamar, as ações desenvolvidas por meio das técnicas teatrais têm amenizado aspectos problemáticos. Para o estagiário, à medida que as intervenções aumentam, há um progresso quanto à concentração e à socialização dos alunos.

Alunos têm melhor desempenho em outras disciplinas

Para Fátima Nogueira Dias, professora do ensino fundamental da Unidade Pedagógica do Combu, o Preamar tem gerado resultados visíveis. “As ações do Projeto em nossa escola têm aumentado o interesse dos alunos em sala de aula. Tenho uma aluna, por exemplo, que sempre foi inquieta e dispersa. Desde que o Teatro entrou em nossa rotina, descobri algo fantástico. A menina se volta completamente às atividades, se envolve e participa. Isso tem se refletido em seu desempenho em todas as disciplinas”, destaca a educadora.

Como estão entre os objetivos do Projeto a promoção de mostras teatrais nas escolas envolvidas e a visita a espetáculos em Belém, os laboratórios de vivência têm atuado também na formação de plateias. Nesta atividade, os alunos-atores têm a oportunidade de descobrir um papel social e individual que precisa ser desenvolvido. Esta ação gera uma fonte inesgotável de cultura e reflexão, favorecendo uma atuação mais consciente na sociedade e despertando o aluno para o mundo das artes cênicas.

“Esta primeira edição do Projeto é uma iniciativa piloto e projetamos novos caminhos a partir desta experiência. Queremos aumentar a participação dos familiares, promover exposições sobre Artes Cênicas nas escolas e, futuramente, adquirir o Barco Preamar Teatral, que seria uma versão flutuante do Projeto”, diz a coordenadora.

O Projeto Preamar almeja, também, contribuir para a saúde e a geração de renda dos moradores das Ilhas. Uma das ideias é a introdução de uma alimentação alternativa na rotina dos comunitários a partir do aproveitamento dos nutrientes procedentes das cascas, raízes, sementes e polpas. A construção de uma padaria comunitária, gerida por mulheres das comunidades ribeirinhas, é outro plano que está sendo estudado.

Para o professor da ETDUFPA Walter Chile, colaborador do Preamar e autor da ideia, a implementação da padaria pode garantir sustento, agregar  os membros da comunidade e preencher uma lacuna na alimentação dos moradores. Pelos êxitos obtidos até agora e pela vontade de toda a equipe, não restam dúvidas de que tais planos sejam concretizados.

Grupo também atende vítimas de escalpelamento

De forma um tanto fortuita, o Projeto Preamar incluiu um novo eixo de ação: oferecer práticas pedagógicas teatrais, especialmente oficinas de clown (palhaço), às vítimas de escalpelamento atendidas pelo Espaço Acolher, da Santa Casa de Misericórdia do Pará. Na Amazônia, onde a população ribeirinha utiliza embarcações como transporte diário, o escalpelamento ainda é comum. No acidente, o cabelo da vítima enrola no eixo do motor e o couro cabeludo é arrancado bruscamente. As principais vítimas são meninas e mulheres que costumam usar cabelos compridos.

A parceria com o Espaço Acolher iniciou em maio de 2010. “Estava na Escola de Teatro quando chegaram alguns estudantes do curso de Farmácia da UFPA querendo orientação para um seminário sobre escalpelamento. Estes alunos queriam falar sobre o assunto por meio da linguagem teatral. Orientei-os a usar o teatro de sombra com depoimentos de uma vítima do acidente”, conta Inês Ribeiro, que, quando criança, sofreu escalpelamento. A partir deste encontro, ela atentou para o fato de que as meninas acidentadas vivem nas ilhas e que uma parceria com o Espaço Acolher seria algo interessante.

Superação – Além de fornecer subsídios metodológicos aos futuros farmacêuticos, a professora foi convidada para participar da abertura do seminário, relatando desde o acidente que sofreu com banha quente, aos dois anos de idade, até a superação pelo esporte. “Hoje, sou uma mulher que superou os traumas, assumiu uma função profissional e vive com muito bom humor”. Com base em sua experiência de vida e em sua trajetória profissional, a pesquisadora decidiu ajudar outras vítimas e estabeleceu os primeiros encontros para firmar a parceria entre o Espaço Acolher e o Projeto Preamar.

A primeira atividade do Preamar no Espaço foi uma visita informal no dia da Festa de São João, quando alguns alunos do Curso Técnico de Ator da ETDUFPA foram apresentar uma performance, resultado da disciplina Clown, ministrada pelo professor Beto Benone. Ainda em junho, as meninas foram até a Escola de Teatro e Dança conhecer o espaço e participar da Ciranda Junina.

Desde então, o Projeto vem ampliando a inserção das meninas na cena teatral de Belém. Para isso, o Preamar Teatral sugeriu visitas aos espaços teatrais da cidade. A primeira foi ao Teatro Cláudio Barradas, onde elas assistiram ao espetáculo “Dons de Quixote”, realizado pelo Grupo de Teatro Universitário da ETDUFPA.

Bom humor resgata autoestima e diminui a dor

A agenda cultural reforça as ações já realizadas durante o tratamento no Espaço Acolher. Quando as meninas vêm a Belém para serem tratadas, passam a desenvolver suas atividades escolares nas escolas públicas da capital, para não perderem o ano letivo. Elas são acompanhadas durante esse período e são capacitadas em oficinas para produzirem perucas e pulseiras, por exemplo. Também são organizadas agendas com passeios, ida ao cinema, aos parques e, a partir de agora, os teatros passam a integrar o roteiro.

A primeira oficina de Clown começou a ser ministrada em setembro. Segundo a professora Inês Ribeiro, a ação busca trabalhar a autoestima das vítimas e ajudá-las a superar o sofrimento gerado pelo traumático acidente. A consciência corporal, a relação com o outro, o trânsito entre o cômico e o sensível são alguns dos tópicos abordados durante as oficinas.
Pela sua concepção, o mais importante não é formar comediantes, mas ajudar as alunas a abandonarem os estereótipos, firmando-se como cidadãs e protagonistas de suas próprias histórias.

Para a equipe do Projeto Preamar, o primeiro objetivo é gerar transformações individuais, porém a coordenadora explica que as oficinas podem ter um desdobramento ainda maior. “Temos a intenção de que estas meninas possam ser capacitadas a transformarem a vida de outras vítimas. Após as oficinas, elas estariam aptas a intervirem nas unidades de tratamento de pessoas escalpeladas, levando alegria e esperança”, explica a professora.

“Precisamos ter mais colaboradores, porque no Preamar Teatral é preamar mesmo !!!”, brinca a coordenadora fazendo alusão ao nome do Projeto, que remete à maré cheia, quando a maré atinge seu nível máximo.

O escalpelamento na Amazônia

O escalpelamento é considerado uma tragédia amazônica, em especial no Pará, onde ocorrem 90% dos casos. O acidente pode ser evitado com o investimento de apenas R$25,00, valor, em média, da carenagem metálica, ou seja, o protetor do eixo dos motores dos barcos.  Apesar do valor irrisório, o escalpelamento continua sendo comum na região amazônica, com uma média de um caso por mês.

O tratamento das vítimas é longo, doloroso, não recupera os cabelos nem as lesões decorrentes do arrancamento de orelhas e pálpebras. Em Belém, o socorro é realizado, no primeiro momento, no Pronto Socorro Municipal e, posteriormente, na Santa Casa de Misericórdia do Pará, onde as vítimas, meninas e mulheres, precisam passar por várias intervenções cirúrgicas, acompanhamento ambulatorial com cirurgião plástico e outros profissionais da instituição.
 
Deixe um comentário

Publicado por em outubro 5, 2010 em Uncategorized

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: