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CONHECER OS MORCEGOS PARA PRESERVÁ-LOS

26 nov

Pesquisa faz levantamento dos morcegos do estado do Rio de Janeiro


Débora Motta/FAPERJ
                                                                          Luciana Moraes Costa
   
    Phyllostomus hastatus: o morcego de maior peso e tamanho
    do estado do Rio de Janeiro, capturado na Ilha da Marambaia
   
Tradicionalmente temidos pela aparência sombria, os morcegos não figuram entre os animais mais queridos no imaginário popular. Mas longe das estórias de ficção que os apresentam sempre dispostos a atacar as jugulares, associando-os aos vampiros e a outras criaturas do mal, eles desempenham, na realidade, um papel fundamental para a preservação das outras espécies na natureza. “Os morcegos controlam o número de insetos nocivos, dispersam sementes e contribuem ativamente para a reprodução de árvores”, explica o biólogo Carlos Eduardo Lustosa Esbérard, do Laboratório de Diversidade de Morcegos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ciente da importância da preservação desses animais, ele coordena um minucioso levantamento das diversas espécies que vivem no estado do Rio de Janeiro, com apoio da FAPERJ. “Conhecer bem os morcegos é o primeiro passo para preservá-los”, diz.
Contemplado pela Fundação por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado, o projeto tem como objetivo realizar inventários sobre os morcegos em vários pontos no estado: no noroeste fluminense – municípios de Cambuci, Miracema, Santa Maria Madalena e Cantagalo; nas ilhas da região da Costa Verde, no litoral sul do estado – Ilha Grande, da Gipóia, da Marambaia, Itacuruçá, do Algodão, Jaguanum e do Capítulo; e na região serrana. “Os inventários são importantes para entender a ocorrência e a diversidade dos morcegos no estado e para identificar os padrões temporais de abundância, de reprodução e de comportamento. Já detectamos, por exemplo, que eles realizam deslocamentos entre as ilhas do litoral sul fluminense e o continente. No caso da Ilha da Gipóia, eles foram atraídos devido à construção de um açude”, conta Esbérard, que já deu início à elaboração de inventários longos no noroeste do estado e na Costa Verde.
Segundo o professor, apesar do Rio de Janeiro ser um dos estados brasileiros com um bom número de amostras da fauna de morcegos, os inventários realizados anteriormente em outras pesquisas eram principalmente de curta duração e, consequentemente, não apresentavam informações precisas sobre as populações estudadas. “Os inventários de curto prazo desconsideravam fatores importantes, como as migrações entre as populações de morcegos, e trabalhavam com um número reduzido de exemplares coletados”, pondera Esbérard. Por esse motivo, além de ter uma abrangência maior em relação às áreas estudadas, considerando pontos do estado onde os morcegos ainda não foram avaliados, os inventários que estão sendo elaborados no projeto do biólogo são de longo prazo, com previsão de pelo menos três anos de duração.
 Luciana Moraes Costa
              
 Equipe do professor Esbérard arma rede acima de curso de água:  
 captura dos morcegos é um processo que leva toda a madrugada

Acompanhado por uma equipe de 14 estudantes, entre alunos de graduação e de pós-graduação em Biologia, o professor coleta periodicamente os mamíferos voadores na natureza para catalogá-los e observar diferenças nas espécies recapturadas, como mudanças no peso do animal, que podem estar relacionadas à degradação do meio ambiente. Para isso, os pesquisadores realizam verdadeiras expedições noturnas em locais de difícil acesso. “A coleta dos morcegos é realizada durante toda a madrugada. Pegamos uma média de 35 a 40 morcegos por noite. A ideia é fazer coletas durante cem noites ao longo de três anos, em cada local estudado.” A tarefa não é simples. O sonar biológico dos morcegos é tão aperfeiçoado que é capaz de captar informações exatas sobre o espaço que os cerca, incluindo obstáculos, inimigos e até a textura do alimento desejado. “Eles são capturados com ajuda de redes armadas em suas rotas de voo, muitas vezes montadas sobre espelhos de água”, conta.

Depois da coleta, cada animal recebe uma coleira de identificação e é novamente solto, para ser recapturado em outras coletas futuras. “O momento da recaptura é o mais gratificante. É quando podemos saber o que aconteceu no período em que eles estiveram em seus habitats“, diz. Com as informações obtidas na recaptura, os pesquisadores podem descobrir qual é a época de reprodução dos animais, se eles se deslocaram ou não nesse meio tempo, se a relação entre peso e tamanho está relacionada à diversidade vegetal de seus habitats e se existe alguma relação entre os parasitas que os acometem com a má conservação das cavernas e de outros abrigos onde vivem.

                                                                         Luciana Moraes Costa
 
 Depois de capturados, os morcegos são colocados em sacos de
 pano, para então serem medidos e pesados pelos pesquisadores
De acordo com o biólogo, foram coletadas até então, em todo o estado, 75 espécies diferentes de morcegos – número que está em atualização permanente. “A diversidade de espécies no Rio de Janeiro é grande. É preciso saber quantas de fato existem, até para contabilizar alterações que essas populações podem sofrer devido às possíveis mudanças climáticas no futuro”, destaca Esbérard, lembrando que das 75 espécies observadas, apenas três são hematófagas (se alimentam de sangue) e duas são carnívoras (se alimentam de pequenos vertebrados inteiros, como os lagartos e pererecas). Todas as outras espécies encontradas são frugívoras (se alimentam de frutos), insetívoras (de insetos) ou nectarívoras (de néctar) e uma delas piscívora (de peixes). “A maioria que vive nas regiões urbanas e nas matas é frugívora. Já nos manguezais, predominam as espécies insetívoras”, completa.
Até o momento, as notícias são boas. Não há indícios de extinção de nenhuma espécie de morcegos fluminense. “Descobrimos que algumas das que estão na lista das ameaçadas são mais abundantes no estado do que se imaginava”, diz. Um exemplo é Lonchophylla bokermanni, que só existe no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. “Já encontramos essa espécie em 21 localidades fluminenses”, conta. Outras espécies raras foram relatadas nos inventários do projeto. “Encontramos na ilha da Gipóia a espécie Macrophyllum macrophyllum, que é apenas o segundo exemplar encontrado em todo o estado. Na reserva do Rio das Pedras, em Mangaratiba, encontramos a Thyroptera tricolor, que não era capturada há 70 anos”, ressalta Esbérard. “Mas só com um esforço de longo prazo em muitos sítios de coleta poderemos amostrar satisfatoriamente toda a riqueza de espécies de morcegos no estado”, conclui. O trabalho já rendeu 14 publicações em renomadas revistas cientificas, como Brazilian Journal of Biology, Zoologia, Memórias da Fundação Oswaldo Cruz, Zootaxa e American Journal of Parasitology.
 
 
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Publicado por em novembro 26, 2010 em Uncategorized

 

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