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insetos ajudam a desvendar crimes

13 dez

Sherlocks da natureza: insetos ajudam a desvendar crimes

Vilma Homero/ FAPERJ
 Divulgação
 
  Investigação inteligente: Janyra Oliveira da Costa está organizando,
     com sua equipe, um banco de dados de entomologia forense
Se não são exatamente detetives com asas, certos tipos de mosca podem ajudar peritos criminalistas a descobrir exatamente como, quando e de que forma alguém foi assassinado. Para elas, não importa se, nas tentativas de dificultar o trabalho policial, o corpo tenha sido carbonizado, jogado na água para lavar evidências ou oculto em lugares distantes do local do crime. Esses Sherlocks alados tudo conseguem desvendar. Basta que os detetives da vida real tenham material adequado para entender o que esses insetos têm a revelar. Exatamente por isso, a pesquisadora Janyra Oliveira da Costa, do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), desde 2005, vem montando um banco de dados de entomologia forense, que reúne vários tipos de análise para comparação. Trabalho que recebeu, no ano passado, recursos do edital de Apoio à Inovação Tecnológica, da FAPERJ.
Conhecida popularmente por varejeira, a mosca Chrysomia albiceps sempre é encontrada em cadáveres. Como ela, certos tipos de inseto são atraídos por material em decomposição, característica que vem sendo usada como recurso na criminalística dos Estados Unidos e de vários países europeus, que já contam com bancos de dados bastante completos. Isso, no entanto, de nada adianta para o Brasil e outros países da América do Sul, já que as espécies se comportam de forma diferente não só de um país para outro, mas mesmo de um estado ou de uma cidade para outra, dadas as diferenças de clima e vegetação. “Se em áreas urbanas do Rio de Janeiro, o limiar de desenvolvimento de uma Chrysomia se dá a temperaturas entre 12 a 15 graus, por exemplo, no Rio Grande do Sul, esse limiar pode ser algo entre 7 e 8 graus”, exemplifica Janyra.
Como explica a pesquisadora, o protocolo básico da entomologia forense exige que se faça, pelo menos, um experimento utilizando um modelo animal, em geral, o porco, por sua semelhança com o homem – para que se conheça o comportamento dos insetos em humanos. “Precisamos não só identificar as várias espécies presentes nas diferentes regiões do estado, como também especificar o período de decomposição que atrai cada uma delas. Ou seja, mostrar que espécie chega em um corpo e quando”, explica Janyra.
 Divulgação
 
 Insetos coletados em corpos revelam  
    como e quando alguém foi morto
E eles chegam quase imediatamente após a morte. Sem que se perceba, começam a colocar ovos nos orifícios naturais do corpo, especialmente boca, narinas e ouvidos. Cada estágio de decomposição corresponde à presença de diferentes tipos desses insetos, já que, por suas características, eles costumam preferir determinadas características físico-químicas – que, nesse processo, estão sempre mudando – do cadáver. Mas como algumas famílias de insetos como a mosca Sarcophagidae são de difícil identificação, a pesquisadora conta com a ajuda de três especialistas de áreas distintas. Para a identificação das espécies de insetos, Janyra tem a parceria das taxonomistas Cátia Antunes Mello-Patiu e Márcia Couri, do Museu Nacional, mas quando se trata de coletar e analisar material molecular, entra em cena o geneticista Rodrigo Moura Neto da UFRJ.
A partir daí, será possível dizer, por exemplo, quem é o cadáver. “Numa cidade como o Rio de Janeiro, que costuma ser quente, em dois ou três dias um corpo começa a ficar inflado, com odor forte, já em fase gasosa. Nesses casos, ele perde material para coletar digitais, então a identificação tem que ser genética”, diz Janyra. Cadáver inflado também significa que o material se encontra muito misturado, contaminado. Mas isso não chega a ser problema para as moscas detetives. “Graças a um processo digestivo muito particular, esses insetos nos auxiliam em qualquer circunstância. Como têm um sistema digestório compartimentalizado e no primeiro compartimento, os tecidos ingeridos não sofrem influência de enzimas digestivas e permanecem absolutamente preservados, é possível recolhê-los para análise. O material que estiver ali será única e exclusivamente do cadáver”, explica.
 
 Chrysomia albiceps: sempre presente em cadáveres
Segundo Janyra, isso também vale para crimes sexuais. Como as moscas preferem se alojar e pôr ovos nos orifícios naturais do corpo, no caso ânus e vagina, tudo o que ingerirem dessa área ficará igualmente preservado em seu primeiro compartimento digestivo. Se houver sêmen, por exemplo, ele será ingerido e mantido preservado na primeira seção digestiva. “Na verdade, ao comer, esses insetos se encarregam de fazer a coleta de material para que possamos depois analisar”, diz a pesquisadora.
Outras duas questões que podem ser respondidas pelos insetos são “quando?” e “onde?”. A primeira, para se determinar o dia da morte, pode ser respondida pelo tempo de desenvolvimento das larvas de mosca. “Como sabemos que as moscas chegam e colocam ovos no mesmo dia da morte, o estágio de desenvolvimento das larvas nos indica o tempo de morte”, fala Janyra. Saber o onde também é questão de se conhecer as espécies endêmicas de cada área, sejam urbanas ou rurais. “Se alguém foi morto na cidade e seu cadáver levado para uma região de serra numa tentativa de ocultação de corpo, por exemplo, mesmo assim os insetos nos dirão. Será o caso de recorrer ao banco de dados para identificar de que áreas são as moscas coletadas. Se divergirem da região em que o corpo foi encontrado, é sinal de que ele não foi morto ali”, explica.
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     O protocolo básico da entomologia forense exige pelo menos a   realização de um experimento com modelo animal, no caso, porco 
Mesmo em estágios avançados de decomposição, esses corpos não escapam de exames toxicológicos, ou de análises para determinação da causa da morte. Heroína, anfetaminas, cocaína, crack ou carbamato, o popular chumbinho, podem perfeitamente ser detectados nas larvas. Da mesma forma, vestígios de chumbo, bário e antimônio são detectáveis e sua presença indica ferimento por arma de fogo, mesmo que esse ferimento tenha sido transfixante – ou seja, o projétil tenha entrado e saído sem ser encontrado. Também não adianta carbonizar o corpo ou atirá-lo na água. “Apesar das condições de calor, odor de combustível e ausência de umidade, se ainda houver tecido, certas espécies de moscas atrasam, mas mesmo assim aparecem. Além disso, há certos tipos de besouro que são atraídos pelos ossos. Também um cadáver afogado atrai determinados tipos de inseto. Basta saber identificá-los e saber a que estágio de decomposição eles correspondem.
Certas situações, no entanto, podem confundir os especialistas. O caso de alguém enforcado, por exemplo. “É que num corpo pendurado, os insetos, como tudo o mais, sofrem a ação da gravidade e caem. Isso pode prejudicar a avaliação do tempo de morte, como aconteceu numa avaliação que fizemos para o Instituto de Criminalística. Enquanto as testemunhas diziam que o morto estava desaparecido há 15 dias, o legista avaliava o estágio de decomposição em uma semana. Isso porque nessa posição, pendurado, a decomposição é mais lenta.”
O trabalho, que vem sendo feito desde 2005, teve novo impulso com a aquisição de equipamento e, mais tarde, com a compra de kits para processamento de análises. “Os estagiários da equipe também estão digitalizando as análises e passando para o banco de dados”, conta Janyra. Com isso, a perícia criminal definitivamente está ganhando um grande aliado. “Ainda há poucos grupos trabalhando com entomologia forense no país. Além do nosso, no Rio, há o pessoal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade de Brasília (UNB), o pessoal da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o pessoal do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Acredito que, aos poucos, isso vá mudando. Afinal, precisamos recorrer aos insetos porque eles contam toda a história.”
 
 
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Publicado por em dezembro 13, 2010 em Uncategorized

 

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